sexta-feira, 17 de julho de 2009

Algo muda na iluminação da sala quando irrompe pela porta. O andar ligeiro, aristocrático, os gestos sumptuosos e suaves, os olhos incendiados... Um quadro impressionista em movimento personificado. Uma tarde de Verão à sombra de árvores de fruta, rasgando a sala carregada de Inverno.
Não quero mais fantasmas. Não preciso de mais fantasmas.
Conto-lhe as sardas, decoro o movimento que faz com os lábios para soltar cada som. À distância, percorro-lhe, com a ponta dos dedos, o braço. Desde o ombro esculpido firmemente até às delicadas falanges dos dedos. Sinto-lhe a textura da pele. Sinto-lhe a temperatura da carne.
Não! Não quero mais fantasmas.

"Olhas como através de mim, cada fissura, imperfeição. Olhas como eu não estivesse aqui e fazes-me duvidar se tens razão."

segunda-feira, 15 de junho de 2009

HOMEM

Pobre animal doente, que te arrastas por entre lamúrias. A memória é o teu mal e a tua cura.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

MISERABILIA

She whispered,
"Oh my God, this really is a joy to behold"
I thought she said "it's a joy to be held" so I held her too close.
It was a grave mistake, she never came back again

Shout at the world because the world doesn't love you.
Lower yourself because you know that you'll have to.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

O cheiro a amores-perfeitos carbonizados é prova suficiente de que a cabana está em chamas. De costas para o incêndio, o homem imobiliza a evidência contra a areia, colocando-lhe um joelho no peito. Com ambas as mãos, arremessadas pela saturação de cólera, garroteia-lhe o pescoço.
As labaredas aniquiladoras lançam, em direcção ao céu, uma coluna de fumo negro e espesso. Memórias em chamas tentam escapar à fatalidade, fugindo pelas portas e pelas janelas - e por todas as brechas que o fogo conciliador rasga nas paredes do abrigo. Porém, acabam prostradas na areia e, ao último suspiro, transformam-se em cinza.
O homem permanece de joelhos, à espera que os derradeiros vestígios de vida desapareçam dos olhos de evidência. Aperta-lhe o pescoço com todas as suas forças enquanto murmura, entre dentes, uma determinação.

sábado, 16 de maio de 2009

Dá-me a tua melhor faca para cortarmos isto em dois

Mãe, eu quero ficar sozinho.
Mãe, não quero pensar mais.
Mãe, eu quero morrer mãe.
Eu quero desnascer, ir-me embora, sem sequer ter que me ir embora.
Mãe, por favor, tudo menos a casa em vez de mim.
Outro maldito que não sou senão este tempo que decorre entre fugir de me encontrar e de me encontrar fugindo, de quê mãe?

Diz, são coisas que se me perguntem? Não pode haver razão para tanto sofrimento.
E se inventássemos o mar de volta, e se inventássemos partir, para regressar?
Partir e aí nessa viagem ressuscitar da morte às arrecuas que me deste.
Partida para ganhar, partida de acordar, abrir os olhos, numa ânsia colectiva de tudo fecundar, terra, mar, mãe...
Lembrar como o mar nos ensinava a sonhar alto, lembrar nota a nota o canto das sereias... Lembrar cada lágrima, cada abraço, cada morte, cada traição, partir aqui com a ciência toda do passado, partir, aqui, para ficar...

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Deixa que um sorriso te rasgue a cara. Não os deixes perceber.
Pede mais uma bebida, para não engolires em seco. Poupa as palavras.
Em breve, a música torna a preencher este espaço, sem deixar escapar milímetro. O som vai-te ajudar, abafando os pensamentos que, como pássaros enjaulados, te recheiam a cabeça num voo aflito de trajectórias erráticas.
Observas, uma a uma, as caras da multidão. A tua busca é vã. Não vais encontrar os olhos que procuras. Não hoje. Não aqui. Porque uns são os que procuram! E os outros, irreconhecíveis, estão mesmo ao teu lado.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

É um bagaço, por favor! Deixe ficar a garrafa...

Dia Normal

Parece que todas as manhãs são iguais. Independentemente do tempo que faz lá fora, ou da cama onde acordo, todos os despertares são difíceis. O de hoje não foi diferente. Não sei o que sonhava, nem é isso que faz a diferença, mas quando a garra metálica do acordar me arranca de um sono profundo, e me atira de novo para a realidade, sinto as fístulas de quem sou, de onde estou e do caminho que me trouxe abrirem-se de novamente na carne.
Considero-me um homem normal, com mais defeitos que virtudes, com mais sonhos do que planos. Julgo que somos todos assim. Sentimos o que não queremos, queremos o que não podemos ter. No fundo, toda a gente queria ser outro. Não sou excepção.
Hoje foi um dia normal. Fiz o mesmo que faço todos os dias. Acordei por volta da mesma hora, com a dificuldade habitual, no mesmo sítio onde me deitei, sem qualquer espécie de metamorfose. Apanhei o autocarro do costume, para o sítio habitual, que não é o sítio para onde queria ir.
Em tempos tive o meu lugar, mas perdi-o. Perdi-o como quem perde a casa para um fogo feroz que tudo consome, deixando apenas cinzas. São as cinzas que me atormentam. Guardo-as religiosamente na esperança de um dia ser capaz de lhes dar a forma que outrora tiveram. Restituir-lhes os cheiros, os sons, as cores, os sabores que faziam daquele lugar, o meu lugar.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Wrong Sign... Wrong House... Wrong Ascendancy
Wrong Road... Wrong Tendencies
Wrong place... Wrong Time
Wrong Reason... Wrong Rhyme
Wrong Day of the wrong week!
Wrong Method with the wrong technique!



There's something wrong with me
Chemically
Something wrong with me
Inherently
The wrong mix in the wrong genes

domingo, 3 de maio de 2009

Deixa-me ser de novo criança. Ter a idade e o tamanho para me aninhar no teu colo. Encostar a cabeça ao teu peito e ouvir-te o coração marcar compasso. Então, quando estivermos embalados pela serenidade conta-me tudo o que ainda não sei sobre ti.
Diz-me que ventos e marés te trouxeram até hoje, por quantos astros te guiaste, que mundos viste, o que sentiste. Descreve-me todas as sensações que te abalroaram nessa viagem de uma vida.
Diz-me de quantos sonhos são os cacos que vejo nos teus olhos. Nesses olhos que viram o mundo mudar, nesses olhos que seguiram a minha inevitável metamorfose.
Conta-me tudo o que sabes, tudo o que te ensinou a vida. Como transformar a dor em força, a desilusão em esperança. Ensina-me a seguir em frente quando a estrada acaba.
Promete-me que vale a pena acordar quando o sono nos quer prender num ilusório mundo de sonhos.
Quero-te aqui para sempre. Preciso de ti como de uma rosa-dos-ventos.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Os olhos brilharam quando recebeu a promessa de eternidade. Singelo e frágil, perdia-se-lhe por entre os dedos o maior tesouro do mundo. Guardou-o com cuidado, enquanto jurava em silêncio que um dia havia de o devolver. Num momento de beijos e abraços, inundado de luz e sorrisos, todas as dúvidas se dissipariam.
Não há caminho sem curvas ou intercepções, nem viagens sem percalços. Obcecado pela passagem do tempo, viu a vida passar e o enorme tesouro permaneceu enterrado numa pequena bolsa de camurça vermelha que lhe ofuscava o valor.
Chegou a velho sem que passasse um dia em que não se lembrasse da preciosidade.
Certo de uma sorte próxima desenterrou a minúscula bolsa de um fundo de gaveta, sem necessitar de um mapa, ou de forçados exercícios de memória para lhe encontrar. Guardou-o no bolso interior esquerdo de um casaco preto, anunciando: “Este será o último traje a me cobrir o corpo.”
Desceram lentamente o caixão para o buraco, feito à medida, com todos os cuidados, como quem tem medo de magoar o morto.
Envergando impecavelmente o fato de luto, com as mãos cruzadas sobre o abdómen, sentia o ardor das promessas que ficaram por cumprir, e dos sonhos que ficaram por viver, queimar-lhe o peito.

sábado, 25 de abril de 2009

Como gostaria de prender o mundo numa órbita passada. Suster a respiração durante dias a fio, para ver e escutar tudo com a máxima atenção.
Decidi desenvolver uma esquizofrenia e ser autista aos fins-de-semana. Alimentar-me de pontos de interrogação. Comê-los compulsivamente, um a seguir ao outro, até se acabarem as dúvidas.
Quero ir para a cama com uma gripe, que me deixe dormir até tarde, e acordar com uma amnésia que me prepare um prato cheio de sol para o pequeno-almoço.
Ontem, roubei uma pistola à dor. Planeio matar a saudade com um tiro no peito.
Lancei uma rede para apanhar as palavras que escaparam. E deixei-as escapar outra vez…
Alguém, por acaso, tem um megafone que me empreste?
Vou subir uma árvore para pedir desculpa.
Eu não sou quem quero!

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Ler García Márquez

Saí do quarto, fechando a porta nas costas e segurando um cigarro por acender nos lábios. Fiz-me aos dois lances da velha escada de madeira que conduz ao piso térreo. Contudo, antes de avançar um pé para o primeiro degrau, do fundo do corredor um homem fez-me sinal para que me aproximasse. Fui até ao seu encontro num estrado de madeira com vista para o mar das Caraíbas.
Era um homem baixo, de cabeça e bigodes grisalhos. Trajava calças de linho branco e um casaco, da mesma cor a material, que se sobreponha à camisa preta.
Num gesto largo de braço convidou-me a sentar à pequena mesa de madeira colorida. Tinha um telefonema para fazer, um e-mail para enviar, o almoço para preparar e engolir, as notícias na televisão para ver e um autocarro para apanhar. No entanto não fui capaz de recusar o convite.
Sentei-me e esperei que a enigmática figura se acomodasse na banca, de frente para mim. Com um velho zippo de prata acendeu-me o cigarro e, sem o apagar, ateou a ponta de um charuto roliço que tirara do bolso da camisa.
Arrancou dois bafos demorados do charuto, inundando o ar com o aroma intenso do tabaco escuro. Por fim quebrou o silêncio.
Falou-me de uma cidade que desembocou no século XX enterrada em merda e preconceito. Com uma voz áspera, mas nítida, descreveu as ruas de terra, alagadas pelas chuvas tropicais, e as casas que de um lado da cidade eram palácios asseados de sombras frescas e do outro, construções toscas de zinco e bicheza.
E contou-me a história de um homem e de uma mulher que casaram por oportunidade e acabaram por descobrir amor em décadas de união. E a vida de um sujeito soturno que ansiava como espectador. Até que um dia o médico morreu ao tentar apanhar um papagaio que se expressava, na perfeição, em espanhol, francês e latim.
E explicou-me ainda como foi possível reacender, aos oitenta anos, uma paixão que se julgava extinta aos dezoito. E vivê-la num rio, outrora restringido por uma maciça floresta consumida pelas esfomeadas caldeiras dos navios.
Falava descontraído, absorto na certeza de que o ouvia.
Da mesma forma que iniciara o discurso, terminou-o. Levantou-se e ajeitou o casaco.
Em jeito de despedida curvou-se, apoiando ambas as mãos no tampo da mesa, e olhou-me bem nos olhos, como quem quer ver para além deles, para me garantir: “a memória do coração elimina as más recordações e exalta as boas e que, graças a esse artifício, conseguimos suportar o passado.”

domingo, 19 de abril de 2009

Quem as escuta? Quem as recolhe, assim, cruéis, desfeitas, nas suas conchas puras?

Tinha doze anos, treze no máximo, quando se apercebeu que escrever era mais fácil que falar.
Não era grande escritor. Facilmente caía em erros de sintaxe ou gramaticais, para não mencionar a ortografia tremida e desajeitada. Não raras vezes separava o predicado do sujeito com vírgulas ou reticências, só por achar que uma pausa entre o enunciado e a acção davam alguma densidade ao texto.
No entanto, escrevia como sabia! E lia… poetas e romancistas ainda sem a destreza necessária para saber distinguir a genialidade da ordinarice.
Quanto mais escrevia, mais queria escrever. Queria ser como aqueles poetas que em meia dúzia de versos despiam toda a dor do mundo.
Exercitava a caneta como uma necessidade. Em casa, trancado no quarto que transformou no seu pequeno mundo hermético, ou na escola. Enquanto os professores discursavam, absorvidos no som da própria voz, enchia as linhas dos cadernos com palavras.
Foi então que descobriu o verdadeiro peso das palavras, plenas de todo o seu significado e esplendor, apenas quando são escritas. Cinzeladas a tinta não carecem de ouvidos para encontrar sentido.
Quando escritas, às palavras basta o papel!
Foi assim que, aos doze talvez treze anos, descobriu que o papel era o seu melhor ouvinte confidente. Desde então bombardeia-o com as palavras que não consegue segurar.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Não passou tempo suficiente para a cidade mudar. Três estações não chegaram para alterar a anatomia desta cidade que amei e odiei com toda a intensidade que me permitiram as forças.
As ruas continuam com os mesmos destinos, percorridas pelos mesmos corpos que se cruzam e trocam olhares silenciosos.
Aqui e além, existem pequenas marcas da passagem do tempo. Uma loja que fechou, outra que abriu, uma obra que finalmente foi concluída. Como o prédio que nasceu, em demorado e ruidoso parto, em frente ao velho apartamento. Já há quem o chame lar!
Com linhas limpas e direitas, destoa da restante fisionomia da rua estreita de paralelos. Por entre prédios antigos que emanam mofos e memórias de estações finadas, ergue-se na sua frescura ofuscante a nova construção, que com dedo exacto aponta o futuro.
Como sempre, o mar contínua a vir e a ir com as marés, ora beijando a terra como fiel amante, ora deixando-a desamparada, qual donzela de coração despedaçado. E deste amor intermitente fica o cheiro acre que envolve a cidade, e lembra que as águas do Atlântico constroem, diariamente, um mundo efémero de mares e rios e canais que torneiam ilhas e continentes de areia.
Continua igual esta cidade que já foi minha. Esta cidade que, como um cofre, guarda memórias de uma vida que vivi. Esta cidade que mantém a mesma paisagem, o mesmo cheiro, mas que não se sente igual.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Este cheiro faz lembrar aquelas manhãs de Sábado, de há muito tempo atrás, há mais de vinte anos.
Aquelas manhãs marcadas por uma rotina matinal que todos sabíamos que eventualmente iria acabar. Não de uma semana para a outra, jamais alguém diria “não vamos mais lá”! Iria cessar gradualmente. Falta-se uma semana num mês, duas no outro e certo dia apercebemo-nos que deixou de ser rotina ir, aos Sábados, visitar os avós ao cemitério.
Já passou tanto tempo – vinte anos, foi o que disse? Sim, confirma-se, a matemática é fácil de fazer – mas ainda recordo o cheiro a cipreste e pinheiro, o som dos passos na gravilha e o pó obstinado que se agarrava aos sapatos e obrigava a vigorosas sacudidelas antes de entrarmos no carro para o regresso.
Não era mais que uma singela homenagem aos defuntos. “Não nos esquecemos”, que fiquem a saber os idos e quem passe por cá. Mudavam-se as flores e a água onde ficavam mergulhados os caules cortados e, com alguns baldes cheios de água fresca, retirava-se a terra que se agarrava à campa caiada de branco.
Sem idade para ajudar no que quer que fosse, assistia à cerimónia. Ora inquieto, atormentado pela agitação da idade, ora melancólico, arrastado pela ideia de pouco saber sobre eles. Restava apenas a imagem de dois velhos, já débeis, que um dia foram a sepultar.
“Foram para o céu.” Foi a resposta que obtive quando perguntei se tinham morrido.
Demasiado pequeno para não ter medo do escuro, chamava por eles à noite, depois de apagadas as luzes. Jurava, em surdina, que não teria medo se me aparecessem e que só queria conversar um pouco.
Precisava de alguém que explicasse tudo o que não percebia.
Ainda hoje preciso.

quarta-feira, 1 de abril de 2009


Foi só mais um dia que agora se encaminha para o fim, com o sol a cair gradualmente para trás dos prédios. Um dia como os outros, comandado pela rotina, com o mesmo número de horas – nem mais nem menos do que vinte e quatro, só porque alguém achou que esse seria o número ideal de horas a dar a um dia.
Da varanda, Júlia observa o rebuliço do bairro que recolhe a casa. Os passeios apinhados de gente em passo apressado. Homens de fato e pasta altiva; mulheres de olhos fundos, com a mala ao ombro e o jantar da família num saco de plástico; crianças sonolentas arrastadas pela mão; um jovem fora-de-horas com um cão pela trela; um cão, com um jovem fora-de-horas pela trela, que levanta a perna junto ao tronco de uma árvore.
Sob o alcatrão, sucedem-se os carros guiados por gente sisuda, enlatada no trânsito que antecede a noite. Ao volante, uns fumam nervosos cigarros, expelindo o fumo por uma frecha no vidro. Outros mudam continuamente o auto-rádio de estação, roem as unhas, enrolam fios de cabelo nos dedos…
Júlia observa um por um os transeuntes, encoberta na altitude da varanda, com a face banhada por aquela luz cor de fogo que escapa por os intervalos dos prédios ao fundo da rua.
Faz tempo que sente no estômago uma sensação de desconforto, um peso que quase parece metálico. É isso, pensa, se alguém me pedisse para descrever o que sinto diria que se trata de uma esfera metálica, fria, muito lisa e luzidia. Até era capaz de lhe dar uma cor, azul titânio.

...

Era algo muito pequeno, realmente muito pequeno, que deixamos crescer nas nossas mãos. E de realmente muito pequeno criou-se realmente muito grande. Tão grande que um dia rebentou.


E os restos ficaram todos nas minhas mãos.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Enterrei-te hoje e queixo-me do tempo...


Bem sei que os funerais não são eventos que se programem com grande antecedência. Aliás, julgo não haver grandes multidões desejosas por planear, ou sequer participar, em semelhante ocorrência. No entanto, há dias em que definitivamente não deveriam haver funerais.
Dias como os de hoje, de sol e calor, são mais propícios a passeios no parque, ou à beira rio, do que a enterros. Poupávamos o latim aos padres e as costas aos coveiros.
Devolver um cadáver à terra impõe um tipo de dia específico. Um dia curto, frio e húmido, em que o céu esteja tão carregado como o semblante dos lamuriantes e tão negro como a indumentária recomendada pela etiqueta. Sim, porque até na morte existe uma etiqueta.
E hoje eu segui-a. Trajei a rigor – mesmo com este calor vesti fato e gravata negra - ouvi os pesares e lamentos de olhos inchados colados ao chão e aguardei que a terra cobrisse por completo o teu caixão, antes de regressar ao velho apartamento, agora vazio.
Desculpa Alice! Enterrei-te hoje e queixo-me do tempo. Vi-te cadáver devolvido à terra e o que me incomoda é o desconforto de usar fato escuro e gravata num dia de sol e calor.
Foram trinta anos juntos… três décadas de casamento que foram hoje a enterrar.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Indelével

Mania a vossa de julgar o tempo uma borracha!

Em delírios febris deixaram pintar tudo a tinta-da-china. Alienados do ar que respiravam, deixaram tatuar até restar pouca pele por preencher… poro a poro, pigmento a pigmento. Do frenético movimento vertical da agulha sobraram apenas traços divergentes cobrindo ambas as faces da derme.
Um dia, o tempo há-de apagá-las, julgaram. Young minds think short.

O tempo não é borracha ou mata-borrões. Quanto muito é analgésico.

Quanto muito, enquanto os dias se arrastam, e as semanas e os meses se consomem, o tempo converte-se em doce morfina que reage nos sôfregos receptores opióides e alivia esse aperto. Esse aperto incómodo que quer parecer lâmina fria e amolada enterrada na carne.
Com o tempo, esses traços, essas chagas sangrentas que vos atravessam o corpo e os órgãos saneiam. Serão um dia cicatrizes que escondem em qualquer fundo de gaveta, omnipresentes. Serão um dia componente capital do que são.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Há tudo isto

Zeros e uns correndo vertiginosamente dão a falsa ilusão do encurtamento das distâncias. Mas falta o cheiro, falta a silhueta, faltam os olhos.
Saldam-se dívidas do passado, aliviam-se os ombros. O peito, esse miserável, não se conforma com a imutável aproximação de um futuro onde não há voltar. O peito quer de volta o tempo em que o tempo pouca importância tinha, quer tornar a ecoar aquela batida serena de quem dorme em paz.

Zeros e uns correndo vertiginosamente dão a falsa ilusão do encurtamento das distâncias.
Trocam-se confidências, serenam-se ânimos. Um beijo na face e ainda tanto por dizer. Um desordenado dicionário de palavras aleatórias que se segura, em atroz esforço, no estômago enquanto o sono tarda a vir.

Por fim vem e traz sonhos de um futuro feito com sobras de passado, sonhos de peitos tranquilos dormindo em paz.
Sonhos destruídos pela cruel constatação que, ao acordar, ainda há mar e céu e areia e astros que não se alinham; ainda há bosques e rios e montanhas e mãos que não se dão; ainda há prédios e ruas e pontes e dúvidas e gente desencontrada e parques e florestas e vales…


Há tudo isto e vazio.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Grover


O meu nome é Grover Cleveland Wolfe e morri aos doze anos.


Decorria a Feira Internacional, a cidade crescia. O mundo conhecia avanços tecnológicos, nasciam novas ciências.
Febre, dores, vómitos, o sangue a escorrer-me do nariz. A voz do médico a confirmar: é febre tifóide!
O choro abafado da mãe… A mãe, coitada, morreu com esta ferida por sarar. Perdeu o seu rapaz.

Tinha doze anos e morri de febre tifóide! É sem pesar que o digo.
Estranho e nebuloso privilégio este de morrer aos doze anos. A minha vida, toda a minha vida, foi uma infância feliz sem perdas ou desilusões.
Uma infância passada por entre a beleza inquietante da loja do Senhor Markham onde metais e madeiras convergiam nas mais diversas formas, nos mais diversos sons que pacientemente esperavam a mestria de alguém para os soltar. Os trompetes, trombones e tubas de metal polido e frio; os violinos, violas, violoncelos e contrabaixos – e respectivos arcos de madeira e crina de cavalo – encostados à parede a fazer lembrar uma fotografia de família. O tosco e pesado acordeão. O majestoso piano de cauda. Toda aquela orquestra fantasma convergia numa impressão interior de conforto sombrio.
A felicidade de fechar os olhos e inspirar fundo e sentir o cheiro da mercearia Garrett invadir-me os sentidos. Um autêntico banquete sensorial de carnes fumadas, queijos, especiarias, frutas, café… A velha mercearia Garrett com o seu chão de madeira escura e as paredes forradas a azulejos com padrões azuis e brancos; a velha mercearia Garrett com mais cores que uma palete de pintor. Como tudo aquilo me preenchia é inesquecível.
E ao lado, a loja do odioso e estéril casal Crocker. Quantas vezes jurei não voltar lá! Mas o aroma estonteante a chocolate sempre me atrapalhou as ideias.
Não havia dor ou metafísica nas tardes passadas no colchão que a mãe ponha a arejar no pátio das traseiras. Deitado, o tempo parava enquanto as nuvens eram empurradas pela aragem de Verão. O mundo não era mais que aquele pátio, um colchão a cheirar a sol e o céu azul borrado de branco.

Sou o rapaz que a minha mãe perdeu. No entanto, sempre soube quem era – quem sou – mesmo quando me aventurei, sozinho, no eléctrico que atravessava a cidade pululante.
Mesmo quando o médico disse “é febre tifóide” e todos me julgaram perdido, eu sempre soube que onde estava era o meu lugar.


segunda-feira, 2 de março de 2009

No sul...

... a luz tem um brilho diferente. Tenho a certeza disso e já me confirmaram. Sem qualquer explicação científica, ou de qualquer outra espécie, a luz tem um brilho diferente no sul.
Em memória de celulóide foi essa luz, com brilho diferente, que gravou a lembrança do dia. Daquele dia.

A luz, a tal luz, torna tudo mais cintilante. A areia, o mar, as peles... E o calor, igualmente diferente, abraça com braços de veludo ternos e gentis. Esse calor que emana do outro lado da mesa... as pernas que se tocam cúmplices à sombra do tampo metálico.
A vontade, o desejo, o impulso! Tudo deixa de existir menos a luz de brilho diferente que, vos garanto, só existe no sul.

No velho apartamento, de móveis pesados e pós residentes, a luz - a tal luz - entra pelo vidro da marquise dando às paredes brancas e ao castanho das madeiras tons amarelados de Outono e calor de início de Verão.
No televisor joga-se uma final. Nada importa, é tudo tão longe como outro mundo.

O mundo real é este de luz com brilho diferente que cintila na beleza escondida de cada objecto.
O mundo real é este abraço de conforto, descoberta e paz.
O mundo real tem núcleo de osso, carne e pele.

O mundo real só existiu no sul onde a luz de brilho diferente gravou em memória de celulóide a lembrança de um dia.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Chove...

... como se o que mais faltasse nesta terra fosse água. Mas não é! Nem doce, nem salgada.



Faltam perto de dois minutos para que volte a chuva. Um forte sentido de observação deixa adivinhar estas coisas. Apressadamente, calça uns sapatos e veste um casaco e faz-se à estrada. Mãos nos bolsos, olhar perdido.
Quer sentir os primeiros pingos na cara, no pescoço, no cabelo.
Abrem-se guarda-chuvas. Na fábrica fizeram um para todos, menos um.
O corpo molha-se, no entanto esta chuva não lava nem arrefece, frustrando todas as expectativas.
Em todas as inclinações a água junta-se e ganha força. Não a suficiente para o levar.
"Deve ser deste peso que levo às costas". Ou no peito... ou na cabeça.

Chove, como se o que mais faltasse nesta terra fosse água. Mas não é!

E ainda assim parece não haver água suficiente.