sexta-feira, 20 de março de 2009

Enterrei-te hoje e queixo-me do tempo...


Bem sei que os funerais não são eventos que se programem com grande antecedência. Aliás, julgo não haver grandes multidões desejosas por planear, ou sequer participar, em semelhante ocorrência. No entanto, há dias em que definitivamente não deveriam haver funerais.
Dias como os de hoje, de sol e calor, são mais propícios a passeios no parque, ou à beira rio, do que a enterros. Poupávamos o latim aos padres e as costas aos coveiros.
Devolver um cadáver à terra impõe um tipo de dia específico. Um dia curto, frio e húmido, em que o céu esteja tão carregado como o semblante dos lamuriantes e tão negro como a indumentária recomendada pela etiqueta. Sim, porque até na morte existe uma etiqueta.
E hoje eu segui-a. Trajei a rigor – mesmo com este calor vesti fato e gravata negra - ouvi os pesares e lamentos de olhos inchados colados ao chão e aguardei que a terra cobrisse por completo o teu caixão, antes de regressar ao velho apartamento, agora vazio.
Desculpa Alice! Enterrei-te hoje e queixo-me do tempo. Vi-te cadáver devolvido à terra e o que me incomoda é o desconforto de usar fato escuro e gravata num dia de sol e calor.
Foram trinta anos juntos… três décadas de casamento que foram hoje a enterrar.

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