sexta-feira, 17 de julho de 2009

Algo muda na iluminação da sala quando irrompe pela porta. O andar ligeiro, aristocrático, os gestos sumptuosos e suaves, os olhos incendiados... Um quadro impressionista em movimento personificado. Uma tarde de Verão à sombra de árvores de fruta, rasgando a sala carregada de Inverno.
Não quero mais fantasmas. Não preciso de mais fantasmas.
Conto-lhe as sardas, decoro o movimento que faz com os lábios para soltar cada som. À distância, percorro-lhe, com a ponta dos dedos, o braço. Desde o ombro esculpido firmemente até às delicadas falanges dos dedos. Sinto-lhe a textura da pele. Sinto-lhe a temperatura da carne.
Não! Não quero mais fantasmas.

"Olhas como através de mim, cada fissura, imperfeição. Olhas como eu não estivesse aqui e fazes-me duvidar se tens razão."

segunda-feira, 15 de junho de 2009

HOMEM

Pobre animal doente, que te arrastas por entre lamúrias. A memória é o teu mal e a tua cura.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

MISERABILIA

She whispered,
"Oh my God, this really is a joy to behold"
I thought she said "it's a joy to be held" so I held her too close.
It was a grave mistake, she never came back again

Shout at the world because the world doesn't love you.
Lower yourself because you know that you'll have to.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

O cheiro a amores-perfeitos carbonizados é prova suficiente de que a cabana está em chamas. De costas para o incêndio, o homem imobiliza a evidência contra a areia, colocando-lhe um joelho no peito. Com ambas as mãos, arremessadas pela saturação de cólera, garroteia-lhe o pescoço.
As labaredas aniquiladoras lançam, em direcção ao céu, uma coluna de fumo negro e espesso. Memórias em chamas tentam escapar à fatalidade, fugindo pelas portas e pelas janelas - e por todas as brechas que o fogo conciliador rasga nas paredes do abrigo. Porém, acabam prostradas na areia e, ao último suspiro, transformam-se em cinza.
O homem permanece de joelhos, à espera que os derradeiros vestígios de vida desapareçam dos olhos de evidência. Aperta-lhe o pescoço com todas as suas forças enquanto murmura, entre dentes, uma determinação.

sábado, 16 de maio de 2009

Dá-me a tua melhor faca para cortarmos isto em dois

Mãe, eu quero ficar sozinho.
Mãe, não quero pensar mais.
Mãe, eu quero morrer mãe.
Eu quero desnascer, ir-me embora, sem sequer ter que me ir embora.
Mãe, por favor, tudo menos a casa em vez de mim.
Outro maldito que não sou senão este tempo que decorre entre fugir de me encontrar e de me encontrar fugindo, de quê mãe?

Diz, são coisas que se me perguntem? Não pode haver razão para tanto sofrimento.
E se inventássemos o mar de volta, e se inventássemos partir, para regressar?
Partir e aí nessa viagem ressuscitar da morte às arrecuas que me deste.
Partida para ganhar, partida de acordar, abrir os olhos, numa ânsia colectiva de tudo fecundar, terra, mar, mãe...
Lembrar como o mar nos ensinava a sonhar alto, lembrar nota a nota o canto das sereias... Lembrar cada lágrima, cada abraço, cada morte, cada traição, partir aqui com a ciência toda do passado, partir, aqui, para ficar...

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Deixa que um sorriso te rasgue a cara. Não os deixes perceber.
Pede mais uma bebida, para não engolires em seco. Poupa as palavras.
Em breve, a música torna a preencher este espaço, sem deixar escapar milímetro. O som vai-te ajudar, abafando os pensamentos que, como pássaros enjaulados, te recheiam a cabeça num voo aflito de trajectórias erráticas.
Observas, uma a uma, as caras da multidão. A tua busca é vã. Não vais encontrar os olhos que procuras. Não hoje. Não aqui. Porque uns são os que procuram! E os outros, irreconhecíveis, estão mesmo ao teu lado.