terça-feira, 28 de abril de 2009

Os olhos brilharam quando recebeu a promessa de eternidade. Singelo e frágil, perdia-se-lhe por entre os dedos o maior tesouro do mundo. Guardou-o com cuidado, enquanto jurava em silêncio que um dia havia de o devolver. Num momento de beijos e abraços, inundado de luz e sorrisos, todas as dúvidas se dissipariam.
Não há caminho sem curvas ou intercepções, nem viagens sem percalços. Obcecado pela passagem do tempo, viu a vida passar e o enorme tesouro permaneceu enterrado numa pequena bolsa de camurça vermelha que lhe ofuscava o valor.
Chegou a velho sem que passasse um dia em que não se lembrasse da preciosidade.
Certo de uma sorte próxima desenterrou a minúscula bolsa de um fundo de gaveta, sem necessitar de um mapa, ou de forçados exercícios de memória para lhe encontrar. Guardou-o no bolso interior esquerdo de um casaco preto, anunciando: “Este será o último traje a me cobrir o corpo.”
Desceram lentamente o caixão para o buraco, feito à medida, com todos os cuidados, como quem tem medo de magoar o morto.
Envergando impecavelmente o fato de luto, com as mãos cruzadas sobre o abdómen, sentia o ardor das promessas que ficaram por cumprir, e dos sonhos que ficaram por viver, queimar-lhe o peito.

sábado, 25 de abril de 2009

Como gostaria de prender o mundo numa órbita passada. Suster a respiração durante dias a fio, para ver e escutar tudo com a máxima atenção.
Decidi desenvolver uma esquizofrenia e ser autista aos fins-de-semana. Alimentar-me de pontos de interrogação. Comê-los compulsivamente, um a seguir ao outro, até se acabarem as dúvidas.
Quero ir para a cama com uma gripe, que me deixe dormir até tarde, e acordar com uma amnésia que me prepare um prato cheio de sol para o pequeno-almoço.
Ontem, roubei uma pistola à dor. Planeio matar a saudade com um tiro no peito.
Lancei uma rede para apanhar as palavras que escaparam. E deixei-as escapar outra vez…
Alguém, por acaso, tem um megafone que me empreste?
Vou subir uma árvore para pedir desculpa.
Eu não sou quem quero!

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Ler García Márquez

Saí do quarto, fechando a porta nas costas e segurando um cigarro por acender nos lábios. Fiz-me aos dois lances da velha escada de madeira que conduz ao piso térreo. Contudo, antes de avançar um pé para o primeiro degrau, do fundo do corredor um homem fez-me sinal para que me aproximasse. Fui até ao seu encontro num estrado de madeira com vista para o mar das Caraíbas.
Era um homem baixo, de cabeça e bigodes grisalhos. Trajava calças de linho branco e um casaco, da mesma cor a material, que se sobreponha à camisa preta.
Num gesto largo de braço convidou-me a sentar à pequena mesa de madeira colorida. Tinha um telefonema para fazer, um e-mail para enviar, o almoço para preparar e engolir, as notícias na televisão para ver e um autocarro para apanhar. No entanto não fui capaz de recusar o convite.
Sentei-me e esperei que a enigmática figura se acomodasse na banca, de frente para mim. Com um velho zippo de prata acendeu-me o cigarro e, sem o apagar, ateou a ponta de um charuto roliço que tirara do bolso da camisa.
Arrancou dois bafos demorados do charuto, inundando o ar com o aroma intenso do tabaco escuro. Por fim quebrou o silêncio.
Falou-me de uma cidade que desembocou no século XX enterrada em merda e preconceito. Com uma voz áspera, mas nítida, descreveu as ruas de terra, alagadas pelas chuvas tropicais, e as casas que de um lado da cidade eram palácios asseados de sombras frescas e do outro, construções toscas de zinco e bicheza.
E contou-me a história de um homem e de uma mulher que casaram por oportunidade e acabaram por descobrir amor em décadas de união. E a vida de um sujeito soturno que ansiava como espectador. Até que um dia o médico morreu ao tentar apanhar um papagaio que se expressava, na perfeição, em espanhol, francês e latim.
E explicou-me ainda como foi possível reacender, aos oitenta anos, uma paixão que se julgava extinta aos dezoito. E vivê-la num rio, outrora restringido por uma maciça floresta consumida pelas esfomeadas caldeiras dos navios.
Falava descontraído, absorto na certeza de que o ouvia.
Da mesma forma que iniciara o discurso, terminou-o. Levantou-se e ajeitou o casaco.
Em jeito de despedida curvou-se, apoiando ambas as mãos no tampo da mesa, e olhou-me bem nos olhos, como quem quer ver para além deles, para me garantir: “a memória do coração elimina as más recordações e exalta as boas e que, graças a esse artifício, conseguimos suportar o passado.”

domingo, 19 de abril de 2009

Quem as escuta? Quem as recolhe, assim, cruéis, desfeitas, nas suas conchas puras?

Tinha doze anos, treze no máximo, quando se apercebeu que escrever era mais fácil que falar.
Não era grande escritor. Facilmente caía em erros de sintaxe ou gramaticais, para não mencionar a ortografia tremida e desajeitada. Não raras vezes separava o predicado do sujeito com vírgulas ou reticências, só por achar que uma pausa entre o enunciado e a acção davam alguma densidade ao texto.
No entanto, escrevia como sabia! E lia… poetas e romancistas ainda sem a destreza necessária para saber distinguir a genialidade da ordinarice.
Quanto mais escrevia, mais queria escrever. Queria ser como aqueles poetas que em meia dúzia de versos despiam toda a dor do mundo.
Exercitava a caneta como uma necessidade. Em casa, trancado no quarto que transformou no seu pequeno mundo hermético, ou na escola. Enquanto os professores discursavam, absorvidos no som da própria voz, enchia as linhas dos cadernos com palavras.
Foi então que descobriu o verdadeiro peso das palavras, plenas de todo o seu significado e esplendor, apenas quando são escritas. Cinzeladas a tinta não carecem de ouvidos para encontrar sentido.
Quando escritas, às palavras basta o papel!
Foi assim que, aos doze talvez treze anos, descobriu que o papel era o seu melhor ouvinte confidente. Desde então bombardeia-o com as palavras que não consegue segurar.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Não passou tempo suficiente para a cidade mudar. Três estações não chegaram para alterar a anatomia desta cidade que amei e odiei com toda a intensidade que me permitiram as forças.
As ruas continuam com os mesmos destinos, percorridas pelos mesmos corpos que se cruzam e trocam olhares silenciosos.
Aqui e além, existem pequenas marcas da passagem do tempo. Uma loja que fechou, outra que abriu, uma obra que finalmente foi concluída. Como o prédio que nasceu, em demorado e ruidoso parto, em frente ao velho apartamento. Já há quem o chame lar!
Com linhas limpas e direitas, destoa da restante fisionomia da rua estreita de paralelos. Por entre prédios antigos que emanam mofos e memórias de estações finadas, ergue-se na sua frescura ofuscante a nova construção, que com dedo exacto aponta o futuro.
Como sempre, o mar contínua a vir e a ir com as marés, ora beijando a terra como fiel amante, ora deixando-a desamparada, qual donzela de coração despedaçado. E deste amor intermitente fica o cheiro acre que envolve a cidade, e lembra que as águas do Atlântico constroem, diariamente, um mundo efémero de mares e rios e canais que torneiam ilhas e continentes de areia.
Continua igual esta cidade que já foi minha. Esta cidade que, como um cofre, guarda memórias de uma vida que vivi. Esta cidade que mantém a mesma paisagem, o mesmo cheiro, mas que não se sente igual.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Este cheiro faz lembrar aquelas manhãs de Sábado, de há muito tempo atrás, há mais de vinte anos.
Aquelas manhãs marcadas por uma rotina matinal que todos sabíamos que eventualmente iria acabar. Não de uma semana para a outra, jamais alguém diria “não vamos mais lá”! Iria cessar gradualmente. Falta-se uma semana num mês, duas no outro e certo dia apercebemo-nos que deixou de ser rotina ir, aos Sábados, visitar os avós ao cemitério.
Já passou tanto tempo – vinte anos, foi o que disse? Sim, confirma-se, a matemática é fácil de fazer – mas ainda recordo o cheiro a cipreste e pinheiro, o som dos passos na gravilha e o pó obstinado que se agarrava aos sapatos e obrigava a vigorosas sacudidelas antes de entrarmos no carro para o regresso.
Não era mais que uma singela homenagem aos defuntos. “Não nos esquecemos”, que fiquem a saber os idos e quem passe por cá. Mudavam-se as flores e a água onde ficavam mergulhados os caules cortados e, com alguns baldes cheios de água fresca, retirava-se a terra que se agarrava à campa caiada de branco.
Sem idade para ajudar no que quer que fosse, assistia à cerimónia. Ora inquieto, atormentado pela agitação da idade, ora melancólico, arrastado pela ideia de pouco saber sobre eles. Restava apenas a imagem de dois velhos, já débeis, que um dia foram a sepultar.
“Foram para o céu.” Foi a resposta que obtive quando perguntei se tinham morrido.
Demasiado pequeno para não ter medo do escuro, chamava por eles à noite, depois de apagadas as luzes. Jurava, em surdina, que não teria medo se me aparecessem e que só queria conversar um pouco.
Precisava de alguém que explicasse tudo o que não percebia.
Ainda hoje preciso.

quarta-feira, 1 de abril de 2009


Foi só mais um dia que agora se encaminha para o fim, com o sol a cair gradualmente para trás dos prédios. Um dia como os outros, comandado pela rotina, com o mesmo número de horas – nem mais nem menos do que vinte e quatro, só porque alguém achou que esse seria o número ideal de horas a dar a um dia.
Da varanda, Júlia observa o rebuliço do bairro que recolhe a casa. Os passeios apinhados de gente em passo apressado. Homens de fato e pasta altiva; mulheres de olhos fundos, com a mala ao ombro e o jantar da família num saco de plástico; crianças sonolentas arrastadas pela mão; um jovem fora-de-horas com um cão pela trela; um cão, com um jovem fora-de-horas pela trela, que levanta a perna junto ao tronco de uma árvore.
Sob o alcatrão, sucedem-se os carros guiados por gente sisuda, enlatada no trânsito que antecede a noite. Ao volante, uns fumam nervosos cigarros, expelindo o fumo por uma frecha no vidro. Outros mudam continuamente o auto-rádio de estação, roem as unhas, enrolam fios de cabelo nos dedos…
Júlia observa um por um os transeuntes, encoberta na altitude da varanda, com a face banhada por aquela luz cor de fogo que escapa por os intervalos dos prédios ao fundo da rua.
Faz tempo que sente no estômago uma sensação de desconforto, um peso que quase parece metálico. É isso, pensa, se alguém me pedisse para descrever o que sinto diria que se trata de uma esfera metálica, fria, muito lisa e luzidia. Até era capaz de lhe dar uma cor, azul titânio.

...

Era algo muito pequeno, realmente muito pequeno, que deixamos crescer nas nossas mãos. E de realmente muito pequeno criou-se realmente muito grande. Tão grande que um dia rebentou.


E os restos ficaram todos nas minhas mãos.