Não passou tempo suficiente para a cidade mudar. Três estações não chegaram para alterar a anatomia desta cidade que amei e odiei com toda a intensidade que me permitiram as forças.As ruas continuam com os mesmos destinos, percorridas pelos mesmos corpos que se cruzam e trocam olhares silenciosos.
Aqui e além, existem pequenas marcas da passagem do tempo. Uma loja que fechou, outra que abriu, uma obra que finalmente foi concluída. Como o prédio que nasceu, em demorado e ruidoso parto, em frente ao velho apartamento. Já há quem o chame lar!
Com linhas limpas e direitas, destoa da restante fisionomia da rua estreita de paralelos. Por entre prédios antigos que emanam mofos e memórias de estações finadas, ergue-se na sua frescura ofuscante a nova construção, que com dedo exacto aponta o futuro.
Como sempre, o mar contínua a vir e a ir com as marés, ora beijando a terra como fiel amante, ora deixando-a desamparada, qual donzela de coração despedaçado. E deste amor intermitente fica o cheiro acre que envolve a cidade, e lembra que as águas do Atlântico constroem, diariamente, um mundo efémero de mares e rios e canais que torneiam ilhas e continentes de areia.
Continua igual esta cidade que já foi minha. Esta cidade que, como um cofre, guarda memórias de uma vida que vivi. Esta cidade que mantém a mesma paisagem, o mesmo cheiro, mas que não se sente igual.
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