terça-feira, 28 de abril de 2009

Os olhos brilharam quando recebeu a promessa de eternidade. Singelo e frágil, perdia-se-lhe por entre os dedos o maior tesouro do mundo. Guardou-o com cuidado, enquanto jurava em silêncio que um dia havia de o devolver. Num momento de beijos e abraços, inundado de luz e sorrisos, todas as dúvidas se dissipariam.
Não há caminho sem curvas ou intercepções, nem viagens sem percalços. Obcecado pela passagem do tempo, viu a vida passar e o enorme tesouro permaneceu enterrado numa pequena bolsa de camurça vermelha que lhe ofuscava o valor.
Chegou a velho sem que passasse um dia em que não se lembrasse da preciosidade.
Certo de uma sorte próxima desenterrou a minúscula bolsa de um fundo de gaveta, sem necessitar de um mapa, ou de forçados exercícios de memória para lhe encontrar. Guardou-o no bolso interior esquerdo de um casaco preto, anunciando: “Este será o último traje a me cobrir o corpo.”
Desceram lentamente o caixão para o buraco, feito à medida, com todos os cuidados, como quem tem medo de magoar o morto.
Envergando impecavelmente o fato de luto, com as mãos cruzadas sobre o abdómen, sentia o ardor das promessas que ficaram por cumprir, e dos sonhos que ficaram por viver, queimar-lhe o peito.

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