terça-feira, 7 de abril de 2009

Este cheiro faz lembrar aquelas manhãs de Sábado, de há muito tempo atrás, há mais de vinte anos.
Aquelas manhãs marcadas por uma rotina matinal que todos sabíamos que eventualmente iria acabar. Não de uma semana para a outra, jamais alguém diria “não vamos mais lá”! Iria cessar gradualmente. Falta-se uma semana num mês, duas no outro e certo dia apercebemo-nos que deixou de ser rotina ir, aos Sábados, visitar os avós ao cemitério.
Já passou tanto tempo – vinte anos, foi o que disse? Sim, confirma-se, a matemática é fácil de fazer – mas ainda recordo o cheiro a cipreste e pinheiro, o som dos passos na gravilha e o pó obstinado que se agarrava aos sapatos e obrigava a vigorosas sacudidelas antes de entrarmos no carro para o regresso.
Não era mais que uma singela homenagem aos defuntos. “Não nos esquecemos”, que fiquem a saber os idos e quem passe por cá. Mudavam-se as flores e a água onde ficavam mergulhados os caules cortados e, com alguns baldes cheios de água fresca, retirava-se a terra que se agarrava à campa caiada de branco.
Sem idade para ajudar no que quer que fosse, assistia à cerimónia. Ora inquieto, atormentado pela agitação da idade, ora melancólico, arrastado pela ideia de pouco saber sobre eles. Restava apenas a imagem de dois velhos, já débeis, que um dia foram a sepultar.
“Foram para o céu.” Foi a resposta que obtive quando perguntei se tinham morrido.
Demasiado pequeno para não ter medo do escuro, chamava por eles à noite, depois de apagadas as luzes. Jurava, em surdina, que não teria medo se me aparecessem e que só queria conversar um pouco.
Precisava de alguém que explicasse tudo o que não percebia.
Ainda hoje preciso.

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