Aquelas manhãs marcadas por uma rotina matinal que todos sabíamos que eventualmente iria acabar. Não de uma semana para a outra, jamais alguém diria “não vamos mais lá”! Iria cessar gradualmente. Falta-se uma semana num mês, duas no outro e certo dia apercebemo-nos que deixou de ser rotina ir, aos Sábados, visitar os avós ao cemitério.Já passou tanto tempo – vinte anos, foi o que disse? Sim, confirma-se, a matemática é fácil de fazer – mas ainda recordo o cheiro a cipreste e pinheiro, o som dos passos na gravilha e o pó obstinado que se agarrava aos sapatos e obrigava a vigorosas sacudidelas antes de entrarmos no carro para o regresso.
Não era mais que uma singela homenagem aos defuntos. “Não nos esquecemos”, que fiquem a saber os idos e quem passe por cá. Mudavam-se as flores e a água onde ficavam mergulhados os caules cortados e, com alguns baldes cheios de água fresca, retirava-se a terra que se agarrava à campa caiada de branco.
Sem idade para ajudar no que quer que fosse, assistia à cerimónia. Ora inquieto, atormentado pela agitação da idade, ora melancólico, arrastado pela ideia de pouco saber sobre eles. Restava apenas a imagem de dois velhos, já débeis, que um dia foram a sepultar.
“Foram para o céu.” Foi a resposta que obtive quando perguntei se tinham morrido.
Demasiado pequeno para não ter medo do escuro, chamava por eles à noite, depois de apagadas as luzes. Jurava, em surdina, que não teria medo se me aparecessem e que só queria conversar um pouco.
Precisava de alguém que explicasse tudo o que não percebia.
Ainda hoje preciso.
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