quarta-feira, 22 de abril de 2009

Ler García Márquez

Saí do quarto, fechando a porta nas costas e segurando um cigarro por acender nos lábios. Fiz-me aos dois lances da velha escada de madeira que conduz ao piso térreo. Contudo, antes de avançar um pé para o primeiro degrau, do fundo do corredor um homem fez-me sinal para que me aproximasse. Fui até ao seu encontro num estrado de madeira com vista para o mar das Caraíbas.
Era um homem baixo, de cabeça e bigodes grisalhos. Trajava calças de linho branco e um casaco, da mesma cor a material, que se sobreponha à camisa preta.
Num gesto largo de braço convidou-me a sentar à pequena mesa de madeira colorida. Tinha um telefonema para fazer, um e-mail para enviar, o almoço para preparar e engolir, as notícias na televisão para ver e um autocarro para apanhar. No entanto não fui capaz de recusar o convite.
Sentei-me e esperei que a enigmática figura se acomodasse na banca, de frente para mim. Com um velho zippo de prata acendeu-me o cigarro e, sem o apagar, ateou a ponta de um charuto roliço que tirara do bolso da camisa.
Arrancou dois bafos demorados do charuto, inundando o ar com o aroma intenso do tabaco escuro. Por fim quebrou o silêncio.
Falou-me de uma cidade que desembocou no século XX enterrada em merda e preconceito. Com uma voz áspera, mas nítida, descreveu as ruas de terra, alagadas pelas chuvas tropicais, e as casas que de um lado da cidade eram palácios asseados de sombras frescas e do outro, construções toscas de zinco e bicheza.
E contou-me a história de um homem e de uma mulher que casaram por oportunidade e acabaram por descobrir amor em décadas de união. E a vida de um sujeito soturno que ansiava como espectador. Até que um dia o médico morreu ao tentar apanhar um papagaio que se expressava, na perfeição, em espanhol, francês e latim.
E explicou-me ainda como foi possível reacender, aos oitenta anos, uma paixão que se julgava extinta aos dezoito. E vivê-la num rio, outrora restringido por uma maciça floresta consumida pelas esfomeadas caldeiras dos navios.
Falava descontraído, absorto na certeza de que o ouvia.
Da mesma forma que iniciara o discurso, terminou-o. Levantou-se e ajeitou o casaco.
Em jeito de despedida curvou-se, apoiando ambas as mãos no tampo da mesa, e olhou-me bem nos olhos, como quem quer ver para além deles, para me garantir: “a memória do coração elimina as más recordações e exalta as boas e que, graças a esse artifício, conseguimos suportar o passado.”

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