quarta-feira, 1 de abril de 2009


Foi só mais um dia que agora se encaminha para o fim, com o sol a cair gradualmente para trás dos prédios. Um dia como os outros, comandado pela rotina, com o mesmo número de horas – nem mais nem menos do que vinte e quatro, só porque alguém achou que esse seria o número ideal de horas a dar a um dia.
Da varanda, Júlia observa o rebuliço do bairro que recolhe a casa. Os passeios apinhados de gente em passo apressado. Homens de fato e pasta altiva; mulheres de olhos fundos, com a mala ao ombro e o jantar da família num saco de plástico; crianças sonolentas arrastadas pela mão; um jovem fora-de-horas com um cão pela trela; um cão, com um jovem fora-de-horas pela trela, que levanta a perna junto ao tronco de uma árvore.
Sob o alcatrão, sucedem-se os carros guiados por gente sisuda, enlatada no trânsito que antecede a noite. Ao volante, uns fumam nervosos cigarros, expelindo o fumo por uma frecha no vidro. Outros mudam continuamente o auto-rádio de estação, roem as unhas, enrolam fios de cabelo nos dedos…
Júlia observa um por um os transeuntes, encoberta na altitude da varanda, com a face banhada por aquela luz cor de fogo que escapa por os intervalos dos prédios ao fundo da rua.
Faz tempo que sente no estômago uma sensação de desconforto, um peso que quase parece metálico. É isso, pensa, se alguém me pedisse para descrever o que sinto diria que se trata de uma esfera metálica, fria, muito lisa e luzidia. Até era capaz de lhe dar uma cor, azul titânio.

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