sexta-feira, 22 de maio de 2009

MISERABILIA

She whispered,
"Oh my God, this really is a joy to behold"
I thought she said "it's a joy to be held" so I held her too close.
It was a grave mistake, she never came back again

Shout at the world because the world doesn't love you.
Lower yourself because you know that you'll have to.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

O cheiro a amores-perfeitos carbonizados é prova suficiente de que a cabana está em chamas. De costas para o incêndio, o homem imobiliza a evidência contra a areia, colocando-lhe um joelho no peito. Com ambas as mãos, arremessadas pela saturação de cólera, garroteia-lhe o pescoço.
As labaredas aniquiladoras lançam, em direcção ao céu, uma coluna de fumo negro e espesso. Memórias em chamas tentam escapar à fatalidade, fugindo pelas portas e pelas janelas - e por todas as brechas que o fogo conciliador rasga nas paredes do abrigo. Porém, acabam prostradas na areia e, ao último suspiro, transformam-se em cinza.
O homem permanece de joelhos, à espera que os derradeiros vestígios de vida desapareçam dos olhos de evidência. Aperta-lhe o pescoço com todas as suas forças enquanto murmura, entre dentes, uma determinação.

sábado, 16 de maio de 2009

Dá-me a tua melhor faca para cortarmos isto em dois

Mãe, eu quero ficar sozinho.
Mãe, não quero pensar mais.
Mãe, eu quero morrer mãe.
Eu quero desnascer, ir-me embora, sem sequer ter que me ir embora.
Mãe, por favor, tudo menos a casa em vez de mim.
Outro maldito que não sou senão este tempo que decorre entre fugir de me encontrar e de me encontrar fugindo, de quê mãe?

Diz, são coisas que se me perguntem? Não pode haver razão para tanto sofrimento.
E se inventássemos o mar de volta, e se inventássemos partir, para regressar?
Partir e aí nessa viagem ressuscitar da morte às arrecuas que me deste.
Partida para ganhar, partida de acordar, abrir os olhos, numa ânsia colectiva de tudo fecundar, terra, mar, mãe...
Lembrar como o mar nos ensinava a sonhar alto, lembrar nota a nota o canto das sereias... Lembrar cada lágrima, cada abraço, cada morte, cada traição, partir aqui com a ciência toda do passado, partir, aqui, para ficar...

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Deixa que um sorriso te rasgue a cara. Não os deixes perceber.
Pede mais uma bebida, para não engolires em seco. Poupa as palavras.
Em breve, a música torna a preencher este espaço, sem deixar escapar milímetro. O som vai-te ajudar, abafando os pensamentos que, como pássaros enjaulados, te recheiam a cabeça num voo aflito de trajectórias erráticas.
Observas, uma a uma, as caras da multidão. A tua busca é vã. Não vais encontrar os olhos que procuras. Não hoje. Não aqui. Porque uns são os que procuram! E os outros, irreconhecíveis, estão mesmo ao teu lado.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

É um bagaço, por favor! Deixe ficar a garrafa...

Dia Normal

Parece que todas as manhãs são iguais. Independentemente do tempo que faz lá fora, ou da cama onde acordo, todos os despertares são difíceis. O de hoje não foi diferente. Não sei o que sonhava, nem é isso que faz a diferença, mas quando a garra metálica do acordar me arranca de um sono profundo, e me atira de novo para a realidade, sinto as fístulas de quem sou, de onde estou e do caminho que me trouxe abrirem-se de novamente na carne.
Considero-me um homem normal, com mais defeitos que virtudes, com mais sonhos do que planos. Julgo que somos todos assim. Sentimos o que não queremos, queremos o que não podemos ter. No fundo, toda a gente queria ser outro. Não sou excepção.
Hoje foi um dia normal. Fiz o mesmo que faço todos os dias. Acordei por volta da mesma hora, com a dificuldade habitual, no mesmo sítio onde me deitei, sem qualquer espécie de metamorfose. Apanhei o autocarro do costume, para o sítio habitual, que não é o sítio para onde queria ir.
Em tempos tive o meu lugar, mas perdi-o. Perdi-o como quem perde a casa para um fogo feroz que tudo consome, deixando apenas cinzas. São as cinzas que me atormentam. Guardo-as religiosamente na esperança de um dia ser capaz de lhes dar a forma que outrora tiveram. Restituir-lhes os cheiros, os sons, as cores, os sabores que faziam daquele lugar, o meu lugar.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Wrong Sign... Wrong House... Wrong Ascendancy
Wrong Road... Wrong Tendencies
Wrong place... Wrong Time
Wrong Reason... Wrong Rhyme
Wrong Day of the wrong week!
Wrong Method with the wrong technique!



There's something wrong with me
Chemically
Something wrong with me
Inherently
The wrong mix in the wrong genes

domingo, 3 de maio de 2009

Deixa-me ser de novo criança. Ter a idade e o tamanho para me aninhar no teu colo. Encostar a cabeça ao teu peito e ouvir-te o coração marcar compasso. Então, quando estivermos embalados pela serenidade conta-me tudo o que ainda não sei sobre ti.
Diz-me que ventos e marés te trouxeram até hoje, por quantos astros te guiaste, que mundos viste, o que sentiste. Descreve-me todas as sensações que te abalroaram nessa viagem de uma vida.
Diz-me de quantos sonhos são os cacos que vejo nos teus olhos. Nesses olhos que viram o mundo mudar, nesses olhos que seguiram a minha inevitável metamorfose.
Conta-me tudo o que sabes, tudo o que te ensinou a vida. Como transformar a dor em força, a desilusão em esperança. Ensina-me a seguir em frente quando a estrada acaba.
Promete-me que vale a pena acordar quando o sono nos quer prender num ilusório mundo de sonhos.
Quero-te aqui para sempre. Preciso de ti como de uma rosa-dos-ventos.