quarta-feira, 20 de maio de 2009

O cheiro a amores-perfeitos carbonizados é prova suficiente de que a cabana está em chamas. De costas para o incêndio, o homem imobiliza a evidência contra a areia, colocando-lhe um joelho no peito. Com ambas as mãos, arremessadas pela saturação de cólera, garroteia-lhe o pescoço.
As labaredas aniquiladoras lançam, em direcção ao céu, uma coluna de fumo negro e espesso. Memórias em chamas tentam escapar à fatalidade, fugindo pelas portas e pelas janelas - e por todas as brechas que o fogo conciliador rasga nas paredes do abrigo. Porém, acabam prostradas na areia e, ao último suspiro, transformam-se em cinza.
O homem permanece de joelhos, à espera que os derradeiros vestígios de vida desapareçam dos olhos de evidência. Aperta-lhe o pescoço com todas as suas forças enquanto murmura, entre dentes, uma determinação.

Sem comentários:

Enviar um comentário