sexta-feira, 20 de março de 2009

Enterrei-te hoje e queixo-me do tempo...


Bem sei que os funerais não são eventos que se programem com grande antecedência. Aliás, julgo não haver grandes multidões desejosas por planear, ou sequer participar, em semelhante ocorrência. No entanto, há dias em que definitivamente não deveriam haver funerais.
Dias como os de hoje, de sol e calor, são mais propícios a passeios no parque, ou à beira rio, do que a enterros. Poupávamos o latim aos padres e as costas aos coveiros.
Devolver um cadáver à terra impõe um tipo de dia específico. Um dia curto, frio e húmido, em que o céu esteja tão carregado como o semblante dos lamuriantes e tão negro como a indumentária recomendada pela etiqueta. Sim, porque até na morte existe uma etiqueta.
E hoje eu segui-a. Trajei a rigor – mesmo com este calor vesti fato e gravata negra - ouvi os pesares e lamentos de olhos inchados colados ao chão e aguardei que a terra cobrisse por completo o teu caixão, antes de regressar ao velho apartamento, agora vazio.
Desculpa Alice! Enterrei-te hoje e queixo-me do tempo. Vi-te cadáver devolvido à terra e o que me incomoda é o desconforto de usar fato escuro e gravata num dia de sol e calor.
Foram trinta anos juntos… três décadas de casamento que foram hoje a enterrar.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Indelével

Mania a vossa de julgar o tempo uma borracha!

Em delírios febris deixaram pintar tudo a tinta-da-china. Alienados do ar que respiravam, deixaram tatuar até restar pouca pele por preencher… poro a poro, pigmento a pigmento. Do frenético movimento vertical da agulha sobraram apenas traços divergentes cobrindo ambas as faces da derme.
Um dia, o tempo há-de apagá-las, julgaram. Young minds think short.

O tempo não é borracha ou mata-borrões. Quanto muito é analgésico.

Quanto muito, enquanto os dias se arrastam, e as semanas e os meses se consomem, o tempo converte-se em doce morfina que reage nos sôfregos receptores opióides e alivia esse aperto. Esse aperto incómodo que quer parecer lâmina fria e amolada enterrada na carne.
Com o tempo, esses traços, essas chagas sangrentas que vos atravessam o corpo e os órgãos saneiam. Serão um dia cicatrizes que escondem em qualquer fundo de gaveta, omnipresentes. Serão um dia componente capital do que são.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Há tudo isto

Zeros e uns correndo vertiginosamente dão a falsa ilusão do encurtamento das distâncias. Mas falta o cheiro, falta a silhueta, faltam os olhos.
Saldam-se dívidas do passado, aliviam-se os ombros. O peito, esse miserável, não se conforma com a imutável aproximação de um futuro onde não há voltar. O peito quer de volta o tempo em que o tempo pouca importância tinha, quer tornar a ecoar aquela batida serena de quem dorme em paz.

Zeros e uns correndo vertiginosamente dão a falsa ilusão do encurtamento das distâncias.
Trocam-se confidências, serenam-se ânimos. Um beijo na face e ainda tanto por dizer. Um desordenado dicionário de palavras aleatórias que se segura, em atroz esforço, no estômago enquanto o sono tarda a vir.

Por fim vem e traz sonhos de um futuro feito com sobras de passado, sonhos de peitos tranquilos dormindo em paz.
Sonhos destruídos pela cruel constatação que, ao acordar, ainda há mar e céu e areia e astros que não se alinham; ainda há bosques e rios e montanhas e mãos que não se dão; ainda há prédios e ruas e pontes e dúvidas e gente desencontrada e parques e florestas e vales…


Há tudo isto e vazio.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Grover


O meu nome é Grover Cleveland Wolfe e morri aos doze anos.


Decorria a Feira Internacional, a cidade crescia. O mundo conhecia avanços tecnológicos, nasciam novas ciências.
Febre, dores, vómitos, o sangue a escorrer-me do nariz. A voz do médico a confirmar: é febre tifóide!
O choro abafado da mãe… A mãe, coitada, morreu com esta ferida por sarar. Perdeu o seu rapaz.

Tinha doze anos e morri de febre tifóide! É sem pesar que o digo.
Estranho e nebuloso privilégio este de morrer aos doze anos. A minha vida, toda a minha vida, foi uma infância feliz sem perdas ou desilusões.
Uma infância passada por entre a beleza inquietante da loja do Senhor Markham onde metais e madeiras convergiam nas mais diversas formas, nos mais diversos sons que pacientemente esperavam a mestria de alguém para os soltar. Os trompetes, trombones e tubas de metal polido e frio; os violinos, violas, violoncelos e contrabaixos – e respectivos arcos de madeira e crina de cavalo – encostados à parede a fazer lembrar uma fotografia de família. O tosco e pesado acordeão. O majestoso piano de cauda. Toda aquela orquestra fantasma convergia numa impressão interior de conforto sombrio.
A felicidade de fechar os olhos e inspirar fundo e sentir o cheiro da mercearia Garrett invadir-me os sentidos. Um autêntico banquete sensorial de carnes fumadas, queijos, especiarias, frutas, café… A velha mercearia Garrett com o seu chão de madeira escura e as paredes forradas a azulejos com padrões azuis e brancos; a velha mercearia Garrett com mais cores que uma palete de pintor. Como tudo aquilo me preenchia é inesquecível.
E ao lado, a loja do odioso e estéril casal Crocker. Quantas vezes jurei não voltar lá! Mas o aroma estonteante a chocolate sempre me atrapalhou as ideias.
Não havia dor ou metafísica nas tardes passadas no colchão que a mãe ponha a arejar no pátio das traseiras. Deitado, o tempo parava enquanto as nuvens eram empurradas pela aragem de Verão. O mundo não era mais que aquele pátio, um colchão a cheirar a sol e o céu azul borrado de branco.

Sou o rapaz que a minha mãe perdeu. No entanto, sempre soube quem era – quem sou – mesmo quando me aventurei, sozinho, no eléctrico que atravessava a cidade pululante.
Mesmo quando o médico disse “é febre tifóide” e todos me julgaram perdido, eu sempre soube que onde estava era o meu lugar.


segunda-feira, 2 de março de 2009

No sul...

... a luz tem um brilho diferente. Tenho a certeza disso e já me confirmaram. Sem qualquer explicação científica, ou de qualquer outra espécie, a luz tem um brilho diferente no sul.
Em memória de celulóide foi essa luz, com brilho diferente, que gravou a lembrança do dia. Daquele dia.

A luz, a tal luz, torna tudo mais cintilante. A areia, o mar, as peles... E o calor, igualmente diferente, abraça com braços de veludo ternos e gentis. Esse calor que emana do outro lado da mesa... as pernas que se tocam cúmplices à sombra do tampo metálico.
A vontade, o desejo, o impulso! Tudo deixa de existir menos a luz de brilho diferente que, vos garanto, só existe no sul.

No velho apartamento, de móveis pesados e pós residentes, a luz - a tal luz - entra pelo vidro da marquise dando às paredes brancas e ao castanho das madeiras tons amarelados de Outono e calor de início de Verão.
No televisor joga-se uma final. Nada importa, é tudo tão longe como outro mundo.

O mundo real é este de luz com brilho diferente que cintila na beleza escondida de cada objecto.
O mundo real é este abraço de conforto, descoberta e paz.
O mundo real tem núcleo de osso, carne e pele.

O mundo real só existiu no sul onde a luz de brilho diferente gravou em memória de celulóide a lembrança de um dia.