sexta-feira, 13 de março de 2009

Indelével

Mania a vossa de julgar o tempo uma borracha!

Em delírios febris deixaram pintar tudo a tinta-da-china. Alienados do ar que respiravam, deixaram tatuar até restar pouca pele por preencher… poro a poro, pigmento a pigmento. Do frenético movimento vertical da agulha sobraram apenas traços divergentes cobrindo ambas as faces da derme.
Um dia, o tempo há-de apagá-las, julgaram. Young minds think short.

O tempo não é borracha ou mata-borrões. Quanto muito é analgésico.

Quanto muito, enquanto os dias se arrastam, e as semanas e os meses se consomem, o tempo converte-se em doce morfina que reage nos sôfregos receptores opióides e alivia esse aperto. Esse aperto incómodo que quer parecer lâmina fria e amolada enterrada na carne.
Com o tempo, esses traços, essas chagas sangrentas que vos atravessam o corpo e os órgãos saneiam. Serão um dia cicatrizes que escondem em qualquer fundo de gaveta, omnipresentes. Serão um dia componente capital do que são.

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