quinta-feira, 5 de março de 2009

Grover


O meu nome é Grover Cleveland Wolfe e morri aos doze anos.


Decorria a Feira Internacional, a cidade crescia. O mundo conhecia avanços tecnológicos, nasciam novas ciências.
Febre, dores, vómitos, o sangue a escorrer-me do nariz. A voz do médico a confirmar: é febre tifóide!
O choro abafado da mãe… A mãe, coitada, morreu com esta ferida por sarar. Perdeu o seu rapaz.

Tinha doze anos e morri de febre tifóide! É sem pesar que o digo.
Estranho e nebuloso privilégio este de morrer aos doze anos. A minha vida, toda a minha vida, foi uma infância feliz sem perdas ou desilusões.
Uma infância passada por entre a beleza inquietante da loja do Senhor Markham onde metais e madeiras convergiam nas mais diversas formas, nos mais diversos sons que pacientemente esperavam a mestria de alguém para os soltar. Os trompetes, trombones e tubas de metal polido e frio; os violinos, violas, violoncelos e contrabaixos – e respectivos arcos de madeira e crina de cavalo – encostados à parede a fazer lembrar uma fotografia de família. O tosco e pesado acordeão. O majestoso piano de cauda. Toda aquela orquestra fantasma convergia numa impressão interior de conforto sombrio.
A felicidade de fechar os olhos e inspirar fundo e sentir o cheiro da mercearia Garrett invadir-me os sentidos. Um autêntico banquete sensorial de carnes fumadas, queijos, especiarias, frutas, café… A velha mercearia Garrett com o seu chão de madeira escura e as paredes forradas a azulejos com padrões azuis e brancos; a velha mercearia Garrett com mais cores que uma palete de pintor. Como tudo aquilo me preenchia é inesquecível.
E ao lado, a loja do odioso e estéril casal Crocker. Quantas vezes jurei não voltar lá! Mas o aroma estonteante a chocolate sempre me atrapalhou as ideias.
Não havia dor ou metafísica nas tardes passadas no colchão que a mãe ponha a arejar no pátio das traseiras. Deitado, o tempo parava enquanto as nuvens eram empurradas pela aragem de Verão. O mundo não era mais que aquele pátio, um colchão a cheirar a sol e o céu azul borrado de branco.

Sou o rapaz que a minha mãe perdeu. No entanto, sempre soube quem era – quem sou – mesmo quando me aventurei, sozinho, no eléctrico que atravessava a cidade pululante.
Mesmo quando o médico disse “é febre tifóide” e todos me julgaram perdido, eu sempre soube que onde estava era o meu lugar.


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